terça-feira, 17 de maio de 2016

Stoner - John Williams


Finalmente resolvi escrever sobre o livro do mês de abril enviado pela TAG Experiências Literárias. "Stoner", escrito por John Williams, relata a vida de um homem de forma simples e encantadora.

Todo mês é aberto um grupo para discussão do livro recebido e este mês eu não consegui participar muito das conversas, pois não pude concordar com a ideia da maioria das pessoas que publicaram comentários lá de que o livro trazia a história de um homem comum.

Longe de ser um homem simples, Stoner saiu do campo para estudar em Oxford, e se apaixonou pela literatura a ponto de largar o curso de Ciências Agrárias e se dedicar a ela. Se tornou professor de Oxford, o que definitivamente não é algo comum. Passou por duas guerras, e, mesmo não tendo ido para o campo de batalha, sofreu com as consequências trágicas desse momento. 

A obra é toda permeada por diplomas éticos, como a questão de ir ou não lutar na guerra, e os jogos políticos dentro da universidade.

Percebi que o que mais irritou os outros assinantes da TAG foi a passividade do personagem em relação às loucuras da sua esposa Edith. Eu também me irritei com a postura dela em diversos momentos, e acho que o Stoner poderia ter evitado várias situações fazendo valer a sua opinião. 

Acho que esse aspecto ressalta outro aspecto incrível do personagem principal: ele escolheu a Edith pra ser sua esposa e, apesar de não conhecê-la muito bem, arcou com as consequências de se casar com ela. Stoner nunca interferiu nas escolhas dela, embora a filha do casal tenha sofrido muito com isso. Isso traz um ar trágico muito interessante para a obra.

Para mim o que o livro tem de simples é a sua escrita, e a leitura flui como se alguém estive sentado ao seu lado contando sua história de vida. Mesmo nos momentos mais difíceis nas últimas páginas, a escrita é leve e agradável.

John Williams, Stoner. Tradução : Marcos Maffei. Editora Rádio Londres, Rio de Janeiro, 2015.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Crime e Castigo - Fiódor Dostoiévski


Finalmente, depois de mais de um mês, eu terminei de ler "Crime e Castigo". Acho que não é necessário dizer que é um livro incrível, afinal, ele não se tornou um clássico à toa.

Acredito que a minha demora na leitura aconteceu porque o livro foi construído de uma forma muito completa. As primeiras partes da obra, que é dividida em seis partes, se dedicam a mostrar os conflitos internos do personagem principal. A situação econômica do Raskólnikov é assustadora, o que torna a leitura difícil.

Há muitos elementos importantes nesse livro, e ele coloca o leitor diante de dilemas éticos e morais. Como a pobreza em que os personagens estão inseridos. Eu, pelo menos, comecei a torcer pra um criminoso sair impune, e talvez fosse essa a intensão do Dostoiévski.

A obra foi publicada em 1866 e mostra um lado sinistro da sociedade russa daquele período. A pobreza, a prostituição, o alcoolismo, as prisões e os exílios na Sibéria. Eu li a edição da coleção de clássicos da editora Abril, que traz ao final dos dois volumes algumas informações sobre o autor e sobre a obra, fundamentais para compreender o contexto de produção do livro e como ele tem relação com a vida do autor.

Não sei se gosto muito do final. Acho que o livro não podia terminar daquele jeito com todas as discussões que o permeiam. Mas não é algo que chega a tirar o brilho da obra.

Fiódor Dostoiévski. Crime e Castigo. Tradução: Rosário Fusco. Editora Abril, Rio de Janeiro, 2010.

domingo, 3 de abril de 2016

Infância - Graciliano Ramos


Mais um livro lido para o "Desafio Livrada 2016" promovido pelo blog "Livrada" (http://livrada.com.br/2016/01/04/desafio-livrada-2016/), este para a categoria "um romance de formação". A primeira impressão que eu tive foi de muita confusão, e parecia que não fazia muito sentido a maneira como o livro se apresenta.

O autor narra as suas memórias de criança, primeiro vivendo em Alagoas, depois em Pernambuco e posteriormente em Alagoas novamente. É uma história dura, que traz a aspereza do pai do autor, seu primeiro contato com a morte, sua dificuldade em aprender e finalmente como seu encantamento pelos livros surgiu.

Durante toda a leitura estranhei a falta de uma linearidade na narrativa. Os capítulos não têm uma ligação clara e é difícil se localizar temporalmente em alguns momentos. Mas, para a minha alegria, a edição que eu li (não sei se isso está presente em todas), tem um posfácio esclarecedor escrito por Cláudio Leitão.

A obra, inicialmente, foi lançada em capítulos avulsos em um periódico de Alagoas, o que destaca a autonomia relativa de cada um. Por esse motivo, a linearidade da narrativa se perde. É como se o autor estivesse contando uma história da sua infância em cada periódico, como se ele conversasse com o leitor e as memórias fossem surgindo. 

Apesar dessa confusão o livro é muito bonito, a maneira como o autor descreve suas dificuldades na escola é tocante e deixa muito claro o quanto a leitura pode mudar a vida de uma pessoa.

Graciliano Ramos. Infância. Editora Record, 2013.

sábado, 26 de março de 2016

A Improvável Jornada de Harold Fry - Rachel Joyce


'A Improvável Jornada de Harold Fry' foi o livro enviado pela TAG - Experiências Literárias no mês de março. Um livro suave e encantador, mas que, ao mesmo tempo, carrega mensagens muito fortes.

Harold Fry é um senhor aposentado que vive com sua esposa Maureen em uma cidade no sul da Grã-Bretanha. Sua jornada começa quando ele recebe uma carta de uma antiga amiga de trabalho, que está com câncer em estágio terminal, se despedindo.

A incapacidade de se despedir por uma carta leva Harold a iniciar uma jornada, física e psicológica, pelo seu passado. E, obviamente, isso leva o leitor a fazer uma jornada pelo seu passado também.

O personagem principal é um homem atormentado pelo silêncio que acompanha sua vida desde a infância, pelo rumo insignificante que que ela parece ter tomado e pela dura realidade que se esconde por trás de um casamento aparentemente tranquilo.

É um livro que fala sobre o poder da memória e sobre como muitas vezes ela nos sufoca e engana. Sobre como antigos sofrimentos e amarguras parecem que nunca vão nos deixar. Por outro lado, o papel do esquecimento no funcionamento da memória também está presente na obra. Pequenos detalhes, que no fundo são importantes, parecem se perder, e eventos muitas vezes precisam ser esquecidos para que possamos continuar vivendo.

O mais tocante na história de Harold Fry é a constatação de que a vida sempre continua e constantemente se renova, e de que muitas vezes perdemos tempo demais deixando ressentimentos tomarem conta e silêncios se prorrogarem. A sua jornada é, acima de tudo, um caminho de perdão e cura.

A edição que li foi publicada pela Suma de Letras, selo da Editora Objetiva, e está muito bem feita. As ilustrações são lindas e o mapa no final do livro é muito útil.

Rachel Joyce. A improvável jornada de Harold Fry. Tradução: Johann Heyss. Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2013.